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05/01/2006 23:24
Introdução da entrevista que Renato Russo fez com Cássia Eller, para a
revista SuiGeneris/ Correio Braziliense, 12 de fevereiro de 1995.
Cássia Eller tem o espírito livre e uma voz única no cenário nacional
- não só quando canta mas também por sua atitude em relação ao mundo
e ao seu trabalho. Não gosto de corrigir as pessoas, é praticamente
a primeira coisa que ela me diz.
Estamos em uma cantina italiana na Barra, onde faremos nossa
entrevista. É perto de sua casa, um espaço amplo e confortável onde
estão seus discos e livros, seu estúdio e instrumentos: ela respira e
vive música 24 horas por dia. E também seu amor por Francisco, seu
filho, e Eugênia, com quem está junto há oito anos quase.
Prefiro não falar muito sobre isso, ela diz com seriedade e, ao
mesmo tempo, com bom humor. Aliás, a primeira impressão que se tem é
de que ela prefere não falar sobre nada em especial. Tudo é simples e
sem complicações para Cássia, que, de menina tímida e meio
bicho-do-mato, como ela mesma se descreve, transforma-se em uma
torre de força quando canta, eletricidade pura para todos os lados.
Na adolescência divida os estudos com aulas de canto operístico - era
ela quem cuidava dos três irmãos mais novos, tocava surdo num grupo
de samba e cantava no Massa Real, um trio elétrico, tudo isso em
Brasília.
Agora ela está mais serena: o nascimento de Francisco mudou tudo. O
que mudou mesmo foi a minha disciplina. Não tinha nenhuma, agora eu
respeito os horários, trabalho num esquema certinho, ela diz e
completa: Este novo disco já é um sinal disso. Ela não esconde de
ninguém que a experiência da maternidade foi e é uma influência forte
na música que faz agora.
A verdade é que Cássia Eller está sendo reconhecida como a excelente
e versátil cantora que é: do blues ao samba, do rock ao soul. E isto
sem perder a identidade ou sua força (que é imensa). O novo disco,
intitulado Cássia Eller, simplesmente, é um grande passo em sua
carreira, elogiadíssimo pela crítica e já seu maior sucesso de
vendas, o trabalho permite um espaço maior para respirar: não só a
Cássia cult, roqueira, cantora de blues, mas Cássia Eller, ela mesma.
Eu queria fazer um disco mais popular, para um público maior. E ela
conseguiu um repertório de primeira, desde uma inédita de Cazuza,
Malandragem, o que foi bom demais da conta, como ela mesma diz
sorrindo, até Try a little tenderness, de Otis Redding, um dos pontos
altos do disco.
Consegui juntar desde o rock dos anos 80 a Ataulfo Alves, Raul
Seixas, Tim Maia... O que eu quero agora é voltar logo para o palco.
Rendo muito mais ao vivo do que no estúdio, com as máquinas, me dá
meio uma vergonha... No palco eu me solto, adoro cantar ao vivo, é o
que mais gosto. E mais: Nesse tempo todo já sei melhor como
funciona a questão dos direitos autorais, lidar com a gravadora, as
fotos, as entrevistas, vídeo-clips... É muita coisa.
E ela deixa acontecer porque sabe que talento não se mede em
porcentagem. Ela é muito leal e firme no que acredita e realmente não
interfere ou tenta controlar o que lhe aparece pela frente.
Quem sou eu para dizer como as pessoas devem viver suas vidas. Eu
sou livre, não é fácil, mas eu sei em que acredito e espero sempre
que todo mundo tenha seu espaço e suas vidas - as pessoas complicam
um pouco as coisas e, olha, não precisa. Eu não fico corrigindo os
outros, eu deixo as coisas rolarem.
E ela ri, sabendo que este talvez seja o melhor controle, a
estratégia mais inteligente, a atitude mais bonita: simplesmente ter
honestidade e coragem para acreditar em sim mesma e enfrentar muito
trabalho, o que não é para qualquer um.
Ela se esconde um pouco, acha um pouco de graça em tudo, é séria, tem
um olhar belíssimo que lembra a índia cantada naquela guarânia antiga
e sua timidez disfarça um pouco o quanto é bonita.
Meninos e meninas, Cássia Eller é uma deusa!
enviada por CaCau
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